Nota técnica
Ureteroscópio descartável vale a pena? A conta por procedimento
A escolha entre ureteroscópio flexível de uso único e reutilizável não tem resposta única: ela depende do volume de procedimentos, do custo de reparo e do tempo que o serviço fica sem o equipamento. Este artigo mostra como fazer a conta por procedimento — a única comparação que permite decidir com número em vez de impressão.
A comparação que costuma ser feita errado
A comparação mais comum é entre o preço de compra do ureteroscópio reutilizável e o preço unitário do descartável. Ela quase sempre leva à conclusão errada, porque ignora três custos que só aparecem depois: o reprocessamento, o reparo e o tempo em que o serviço fica sem o equipamento.
O reutilizável tem custo de aquisição alto e custo marginal baixo. O de uso único inverte isso: aquisição zero e custo marginal alto. Comparar os dois pelo preço de etiqueta é comparar grandezas diferentes. A comparação correta é por procedimento realizado.
A fórmula
Para o reutilizável:
custo por procedimento =
(preço de aquisição ÷ número de procedimentos até a substituição)
+ custo de reprocessamento por ciclo
+ (custo médio de reparo × frequência de reparo)
+ custo de indisponibilidade durante o reparo
Para o de uso único:
custo por procedimento = preço unitário do dispositivo
O de uso único tem a conta simples. É justamente por isso que ele parece caro: todo o custo está visível. No reutilizável, três dos quatro componentes só aparecem no orçamento do ano seguinte.
Os quatro componentes que decidem a conta
1. Quantos procedimentos até a substituição
É o número que mais muda o resultado. Martin e colaboradores (2017), em The Journal of Urology, acompanharam 160 casos e registraram 11 danos — uma média de 12,5 casos até a falha, com custo amortizado de US$ 848,10 por uso. Hennessey e colaboradores (2018), na BJU International, mediram 234 procedimentos com 7 aparelhos e 15 danos.
A condição do aparelho pesa muito. Carey e colaboradores (2013), em Urology, avaliaram aparelhos recondicionados e encontraram 6,9 usos até um novo dano — e o estudo brasileiro de Marchini e colaboradores (2018), na Revista de Medicina da USP, registra que aparelhos novos duram de três a quatro vezes mais que recondicionados.
E há uma variável sob controle do serviço: Karaolides e colaboradores (2013), em Urology, mostraram que protocolo de uso seguro e treinamento elevaram os usos até o dano de 10,6 para 21,6 — praticamente o dobro (p = 0,035).
2. O custo de reprocessamento
Não é só o insumo de desinfecção. Inclui o tempo da equipe do centro de material e esterilização, o rastreamento do ciclo e a ocupação do equipamento de reprocessamento. É o componente que mais varia entre instituições, e o que cada serviço precisa levantar internamente.
3. Reparo — o componente mais subestimado
Ureteroscópios flexíveis são equipamentos delicados. Hennessey e colaboradores (2018) calcularam um custo médio de reparo de A$ 695 por caso na série estudada. Além do valor, pesa o prazo: um aparelho em manutenção é um aparelho que não opera.
4. Indisponibilidade
Se o serviço tem um único aparelho e ele vai para reparo, o custo real não é o do conserto — é o dos procedimentos que deixaram de ser feitos ou foram transferidos. Serviços com aparelho reserva diluem esse custo; serviços com um só, não.
O que a literatura brasileira diz
O estudo de Marchini e colaboradores (2018), publicado na Revista de Medicina da USP, analisou exatamente essa decisão em um modelo de custo. A conclusão é direta: a relação custo-efetividade de um programa de ureteroscopia flexível depende de vários aspectos que precisam ser considerados na escolha entre uso único e reutilizável.
O estudo também registra dois pontos práticos: aparelhos novos duram de três a quatro vezes mais que recondicionados, e cirurgias com ureteroscópio digital levam em média 20% menos tempo. E aponta a variável que move o mercado: os dispositivos de uso único tendem a se tornar padrão quando o preço de fabricação cair de forma significativa.
Uma ressalva de data. O estudo é de 2018, e o preço dos dispositivos de uso único caiu desde então — o que favorece o descartável em relação ao que o modelo original indicava. Qualquer conta feita hoje deve usar preço de hoje, não o do artigo.
O ponto de equilíbrio
Com os quatro componentes preenchidos, a decisão vira aritmética. Martin e colaboradores (2017) chegaram a um limiar aplicável: acima de 99 casos por ano, o reutilizável passa a compensar. Abaixo disso, o de uso único tende a sair na frente.
- Volume alto e aparelho bem cuidado favorecem o reutilizável, porque o custo de aquisição se dilui por muitos procedimentos.
- Volume baixo favorece o uso único, porque não há por onde diluir a aquisição.
- Serviço com aparelho único e sem reserva favorece o uso único, porque o custo de indisponibilidade é alto.
- Procedimentos complexos, com maior risco de dano, encurtam a vida do reutilizável e aproximam as duas contas.
Não existe resposta geral. Existe a conta do seu serviço.
Uma planilha de decisão
| Componente | Reutilizável | Uso único |
|---|---|---|
| Aquisição ÷ nº de procedimentos | preencher | R$ 0 |
| Preço unitário | R$ 0 | preencher |
| Reprocessamento por ciclo | preencher | R$ 0 |
| Reparo × frequência | preencher | R$ 0 |
| Indisponibilidade | preencher | R$ 0 |
| Custo por procedimento | = | = |
Preencha as duas colunas com os dados do seu serviço. Se não tiver o número de reparos do último ano, ele é o primeiro dado a levantar — costuma ser o que mais muda o resultado.
Perguntas frequentes
Ureteroscópio descartável é sempre mais caro?
Não. Ele tem custo por unidade mais alto e custo total menor em serviços de baixo volume, sem aparelho reserva ou com histórico de reparo frequente. Martin e colaboradores (2017) situam o ponto de virada em torno de 99 casos por ano.
Quantos procedimentos um ureteroscópio flexível reutilizável suporta?
Varia com o modelo, o tipo de procedimento e o cuidado no manuseio. A literatura registra média de 12,5 casos até a falha (Martin, 2017) e 6,9 usos em aparelhos recondicionados (Carey, 2013). Com protocolo de uso seguro e treinamento, Karaolides e colaboradores (2013) elevaram esse número de 10,6 para 21,6.
O que mais encurta a vida de um ureteroscópio flexível?
Carey e colaboradores (2006) quantificaram as causas em 601 casos, com 53 danos (8,1%): 35,9% por disparo indevido do laser dentro do canal, 28,2% por torção excessiva, 20,5% por perda de flexão sem causa aparente e 7,7% no processamento fora da sala.
Como a NGD Med ajuda nessa decisão?
Fornecendo as duas rotas e a especificação de cada uma. Veja o ureteroscópio flexível digital HD e a fibra laser de hólmio, ou peça uma cotação comparativa informando o volume mensal do serviço.
Fontes
- Marchini GS et al. (2018). Ureteroscópio flexível reutilizável versus de uso único: análise de custo para modelo de decisão. Revista de Medicina (USP), v.97 n.3.
- Martin CJ et al. (2017). The Economic Implications of a Reusable Flexible Digital Ureteroscope: A Cost-Benefit Analysis. The Journal of Urology.
- Hennessey D et al. (2018). Single-use disposable digital flexible ureteroscopes: an ex vivo assessment and cost analysis. BJU International.
- Carey RI et al. (2013). Prospective evaluation of refurbished flexible ureteroscope durability. Urology.
- Carey RI et al. (2006). Frequency of ureteroscope damage seen at a tertiary care center. The Journal of Urology.
- Karaolides T et al. (2013). Improving the durability of digital flexible ureteroscopes. Urology.
Este conteúdo tem finalidade informativa e técnica e destina-se a profissionais de saúde e a equipes de compra e engenharia clínica. Não constitui recomendação clínica, protocolo assistencial nem substitui as instruções de uso do fabricante ou a avaliação do profissional responsável pelo procedimento. Os dados citados vêm das fontes referenciadas no texto, cada uma com seu ano de publicação; onde houver menção a custo, considere que preços de mercado mudam. A NGD Med é distribuidora de dispositivos médicos e não presta assistência à saúde.